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COLUNISTA PEDRO CARDOSO em Altos cachês em festas juninas #vaivendo


Não é preciso lutar para acabar com as festas juninas nem com nenhuma que faça parte da cultura nacional ou de determinadas regiões. Mas é preciso colocar em discussão os altos cachês pagos por prefeituras às bandas famosas.
No caso específico das festas juninas, seria preciso recolocá-las nas suas características tradicionais. Uma festa típica de família se modificou a ponto de já vislumbrar uma disputa com o carnaval. Caruaru e Campina Grande disputam o título do maior São João, assim como Salvador e Recife rivalizam-se na busca de ser o melhor carnaval do Brasil.
O licor que regava as famílias em visitas recíprocas foi substituído pelos sofisticados drinksde frutas, com destaque principal para os “capetas”.
As comidas caseiras de milho cederam espaço aos mirabolantes bolos e doces industrializados. As fogueiras foram substituídas pelas perigosas guerras de espadas. Os foguetes sumiram diante das pirotecnias de gigantes refletores. 
Esses progressos fazem parte da evolução natural da sociedade e de suas inevitáveis tecnologias. Ocorre que muitas dessas mudanças resultam de interesses de grandes empresas que massificam com merchandising de músicas, bebidas e de outros componentes, sem deixar espaço para a concomitância de manifestações tradicionais do genuíno São João.
A partir de tanta transformação, houve um divórcio não amigável entre os festejos familiares, forçosamente substituídos pelas megas festas industriais e tecnológicas. Nesse ponto, surge a maior de todas as distorções que se transformou em problema: as prefeituras assumiram os papéis das famílias e passaram a competir entre si e a bancar as festas com o dinheiro escasso do contribuinte.
Daí por diante, em busca do topo, passaram a contratar duplas sertanejas, cantores de axé e de todos os ritmos, numa busca frenética de destacar o São João da sua cidade perante os demais municípios da região. A disputa foi além das músicas, como “o forró daqui é melhor do que o seu”... Mais concorridos, os artistas elevaram seus cachês a patamares estratosféricos. Houve uma polêmica nacional recente, segundo o noticiário, quando uma prefeitura do Nordeste teria contratado um cantor por mais de meio milhão de reais para o São João de 2016.
As festas podem se desenvolver e chegar ao nível de Olimpíada, mas jamais com o dinheiro que falta para o hospital, a creche, a limpeza da praça, o remédio e os aparelhos para exames simples. Isso vale para as prefeituras de São Paulo e Rio de Janeiro, que bancam as escolas de samba, e para todas as celebrações Brasil afora. Não somos a Inglaterra. Os ingleses podem bancar sua Monarquia. Os ingleses!
Por aqui perdura a cultura de manter, pelo menos, a festa. Um exemplo é essa repreensão de uma munícipe, no interior da Bahia. “Pedro, não reclame do preço das bandas de forró. Só temos a festa para nos divertir. Se você acabar com ela, nós não teremos a festa, nem hospital, nem médico; nada.” Vida que segue...

Pedro Cardoso da Costa – Interlagos/SP
   Bacharel em direito

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