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B_T_PGDÃO, o pagodão é o punk baiano

Rafa Dias, Mahal Pita e grande elenco pegaram a ousadia & alegria do Parangolé, afrofuturismo digital, global bass e uma sincera preocupação estética para criar o Bota Pagodão.

Foto: Fernando Gomes
Tendo como base a experimentação e produção de conteúdo a partir da música popular urbana da Bahia, o B_T_PGDÃO (leia Bota Pagodão) tem chamado atenção pelo trabalho feito com o amado e odiado pagodão. Com a mesma ousadia e alegria que você encontraria num show do Parangolé ou qualquer outro expoente do gênero, os caras estão conseguindo fazer o ritmo que vem dos guetos de Salvador se fundir ao universo digital, valorizando toda a estética e cultura local que o cerca. Mantêm a diversão e o suingue do groove arrastado em primeiro lugar, mas inserem nessa atmosfera discussões urgentes e impõem respeito a essa que é só mais uma das várias vertentes da música preta feita na Bahia.
"A gente costuma dizer que o pagodão é o punk daqui, tudo que você vê de desordem na música da Bahia hoje vem dele. A galera fecha a rua, bota o som e faz a festa do jeito que quer", comenta Rafa Dias, (o ÀTTØØXXÁ), produtor e idealizador do coletivo. Além dele, as demais cabeças que formam a parada vêm de origens diversas, trazendo experiências adquiridas no trabalho em importantes nomes da música contemporânea da Bahia como Pagodart, Baiana System e OzBambaz. 
O mote para o surgimento do coletivo foi a realização de uma festa que juntasse essa galera que vinha se dedicando à mesma proposta, mas cada um em seu canto, como conta Rafa: "Eu já conversava com Pedro Marighella (Som Peba) e Mr. Bobby sobre essa necessidade de um bang pra mostrar o que todo mundo estava fazendo. É uma galera que já estudava a parada e que não estava se encontrando". A primeira edição da festa já surpreendeu muito lotando a casa e logo surgiu uma demanda de shows. Foi aí que se desenvolveu a performance coletiva que fazem hoje nos palcos, baseados também na ideia de se chegar a outros resultados a partir dessas interações e não apenas juntar o que cada um já fazia individualmente. 
Essa primeira reunião tem pouco mais de um ano, mas pode-se dizer que o Bota Pagodão é filho de duas iniciativas anteriores de Rafa junto ao também produtor Mahal Pita. Braunation e A.MA.SSA eram projetos capitaneados pela dupla que já buscavam experimentar o pagode com referências do global bass, algo que faz eco ao que o Buraka Som Sistema fez com o kuduro, por exemplo. "A Braunation foi o começo de tudo. Tinha muito experimentalismo, afrofuturismo, isso há sete anos, e essa é uma estética que só começou a ser mais assimilada por aqui recentemente. Com A.MA.SSA, que era algo menor e devia ter vindo antes, a gente circulou mais e experimentou mesmo essa coisa de aliar o universo digital ao pagode", revela Mahal. 
Essa junção vai além da música e também se manifesta na estética do coletivo, que recentemente fez a temporada de shows "Farofada", no Pelourinho. No conceito e na decoração, o evento trazia referências da história da Bahia e da arte pop digital. Os caras buscaram inspiração na história de Rusticão, um colonizador que foi comido por índios canibais na região de Itaparica. Para Mahal, "a farofada é relacionada à nossa forma de entender tudo que a gente absorve na música sem muita pretensão. A gente não tá nem aí se é trap, se é pagotrap... isso não importa. É nossa experimentação com elementos daqui para além do que já é mais explorado e não é uma coisa só nossa, outros artistas aqui tem experimentado e flertado com o pop de uma forma que não é vazia". Nas apresentações, os caras ainda convidam grupos de dança e músicos de gerações diversas para participar da bagunça organizada que fazem no palco.

Foto: Fernando Gomes
Além dos shows e festas, o coletivo também atua com as ramificações LAB Pagodão — focado nos processos de composição dos sons e nessa interação com outros músicos — e o Papo Pagodão, que visa ser um ambiente de diálogo sobre temas que circundam o ritmo, dando a voz a quem pensa a parada do lado de dentro. Em um gênero musical que vive cercado de polêmicas, principalmente relacionadas ao machismo nas letras, isso se mostra de fundamental importância. "Já que a gente está subvertendo as coisas musicalmente, buscamos subverter o pensamento também. Precisa mesmo ficar falando de mulher o tempo todo? Como a gente pode falar de forma diferente? Se não é interessante fazer o mesmo riff de guitarra de tal banda, a gente também não vai ficar repetindo as ideias e isso é para além do som, é uma questão de entendimento nosso como pessoa, de pensar que a gente tem que fazer a manutenção dessas questões", opina Mahal.  
Salvador vive atualmente sob algumas ações que tentam podar as manifestações do gueto. Diminuíram as linhas de ônibus da periferia para orla aos finais de semana, proibiram os paredões e, mesmo sendo a trilha do povão, o pagodão ficou de fora dos editais públicos de carnaval esse ano. "Quando a gente fala que foi deixado de fora do carnaval de Salvador, não é só o Bota, é a maior parte da galera do pagode que não tem um empresário ou marca grande por trás e também não vai tocar aqui. Tem tudo que é vertente lá nos editais, mas não tem pagodão", conta Rafa Dias, que esse ano vai levar o ÀTTØØXXÁ aos carnavais de João Pessoa e Recife. Mahal completa afirmando que se sente "decepcionado com essa coisa de não tocar no carnaval, mas a gente tem o entendimento de que é uma parada maior: quem está produzindo não tem a mesma visibilidade de quem está divulgando. Essa é uma discussão macro, quem plantou não está colhendo e isso está errado".
Foto: Fernando Gomes
Conheça os caras que fazem o coletivo
Mahal Pita
Produtor musical e diretor criativo, colabora com artistas do cenário nacional e faz parte do BaianaSystem. 

OZ
Compositor de hits do pagode, já tocou nas bandas Leva Nóiz, Dignow, OzBambaz e hoje também integra o Pagodart. Lançou recentemente o discaço BLVCKBVNG, em parceria com ÀTTØØXXÁ. 

Pedro Marighella
Também atende pela alcunha de Som Peba, é produtor, DJ e artista visual. 

Rafa Dias
É o cara por trás do ÀTTØØXXÁ e também trabalha com artistas como Larissa Luz, Lívia Nery e Márcia Castro. 

Bobby
Músico e designer, fundador da Mr. Bobby e inclui em suas apresentações brinquedos e instrumentos feitos com frutas.

Wallace Chibatinha
Prodígio da guitarra, passou por bandas como Paparico e hoje toca no Pagodart. 

Raoni Knalha
Letrista e vocal, também faz parte da banda Os Nelsons e acompanha o projetoOZ & ÀTTØØXXÁ.

Gabriel Barreto
Designer, videomaker e cenógrafo multimídia.

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